Fonte: Square Enix
Para dar continuidade a esta série de artigos, irei falar de um dos géneros mais conhecidos dos videojogos, que curiosamente nasceu de ideias vindas dos jogos de tabuleiro. Apesar de já não ser tão popular como foi em tempos, este é um género que voltou a ganhar destaque nos últimos anos.
Estou a falar do género JRPG, ou Japanese Role-Playing Game.
ORIGEM, AUGE E QUEDA
Para entendermos melhor este género, primeiro temos de falar um pouco sobre os RPG (Role-Playing Game).
O género RPG foi fortemente inspirado pelos jogos de tabuleiro, especialmente Dungeons & Dragons.
Muitas das mecânicas associadas aos RPG nasceram nesses jogos, onde os jogadores criavam e evoluíam personagens, melhoravam atributos, participavam em aventuras guiadas pela narrativa e enfrentavam batalhas mais estratégicas.
Alguns anos depois, a indústria dos videojogos começou a adaptar essas ideias, criando os primeiros RPG digitais. Jogos como Ultima e Wizardry são bons exemplos disso. No entanto, devido às limitações técnicas da época, muitos sistemas tiveram de ser simplificados.
Foi durante os anos 80, com o crescimento da indústria dos videojogos no Japão, que o género começou realmente a popularizar-se. A indústria japonesa pegou nos conceitos criados pelos RPG ocidentais e tornou-os mais intuitivos e acessíveis ao público através das consolas.
Assim nasceu aquele que muitos consideram o primeiro JRPG: Dragon Quest.
O jogo simplificou várias mecânicas complexas dos RPG anteriores e apresentou uma experiência mais acessível e intuitiva. Introduziu um sistema de combate por turnos — semelhante a um jogo de xadrez, onde cada jogador atua na sua vez —, um sistema de exploração e progressão, além de uma narrativa mais linear e direta.
O sucesso de Dragon Quest transformou os JRPG num dos géneros mais populares do Japão e influenciou a criação de séries como Final Fantasy e Chrono Trigger. Ao criar bases sólidas, o género estabeleceu-se como uma identidade própria dentro da indústria dos videojogos, não só no Japão, mas também no resto do mundo.
Atualmente, um videojogo não precisa de ser desenvolvido no Japão para ser considerado um JRPG.
No entanto, no início dos anos 2000, os jogos de ação em tempo real começaram a dominar a indústria e as experiências tornaram-se mais rápidas e cinematográficas.
Como consequência, os JRPG começaram a perder popularidade, sendo vistos por muitos jogadores como lentos e repetitivos. Perante essa mudança, a indústria viu-se obrigada a adaptar e modernizar várias mecânicas clássicas para conquistar um novo público, algo que veremos mais à frente neste artigo.
QUE CARATERÍSTICAS DEFINEM UM JRPG?
Embora os JRPG tenham evoluído bastante ao longo dos anos, existem várias características que continuam associadas ao género.
1. NARRATIVA LINEAR
Os JRPG costumam apresentar histórias mais diretas e lineares, normalmente protagonizadas por um grupo de personagens. A narrativa foca-se principalmente no desenvolvimento emocional desse grupo e na evolução das suas relações ao longo da aventura.
2. PROGRESSÃO
A progressão sempre foi um dos elementos centrais dos JRPG e segue muitas das mecânicas clássicas dos RPG. Ganhamos experiência, aumentamos o nível das personagens, melhoramos atributos — vida, dano, defesa ou sorte — e evoluímos armas e equipamentos.
Esta sensação constante de evolução é um dos elementos que mantém o jogo interessante. À medida que progredimos, enfrentamos desafios mais difíceis e complexos.
Além disso, na maioria dos JRPG, o sistema de progressão está diretamente ligado à narrativa. À medida que avançamos na história, as personagens tornam-se mais fortes e crescem emocionalmente, fazendo com que a jornada tenha impacto tanto na jogabilidade como na própria narrativa.
3. VISUAL (VARIÁVEL)
Visualmente, os JRPG desenvolveram uma identidade muito própria, fortemente inspirada pela cultura japonesa, especialmente anime e manga. Isso é visível tanto no design das personagens como na construção dos cenários.
Ainda assim, esta característica pode variar bastante. Atualmente, vários estúdios ocidentais utilizam estilos artísticos diferentes sem perder a essência do género, como acontece em Clair Obscur: Expedition 33.
4. COMBATE
O combate por turnos é provavelmente a característica mais associada aos JRPG.
Inspirado pelos RPG de tabuleiro, este sistema permite ao jogador agir de forma estratégica, escolhendo ataques, habilidades ou itens durante a sua vez. Apesar de bastante popular, este estilo de combate não agrada a todos os jogadores por ser mais lento e estratégico.
No entanto, ao longo dos anos, vários estúdios começaram a modernizar esse sistema para o tornar mais dinâmico e acessível.
5. BANDA SONORA E AMBIENTAÇÃO
Desde os primeiros jogos do género, a banda sonora e a ambientação desempenham um papel essencial na construção da narrativa e da atmosfera.
A banda sonora surge nos momentos certos e consegue tornar determinadas cenas ainda mais emocionais, impactantes e cinematográficas.
Já a ambientação — efeitos sonoros, efeitos visuais e construção dos cenários — é o elemento que nos faz não apenas jogar, mas viver verdadeiramente a história que está a ser contada.
Pessoalmente, estes são dos elementos que mais me prendem num videojogo, não apenas nos JRPG.
COMO O GÉNERO EVOLUIU?
Após a perda de popularidade do género, os estúdios tiveram de se reinventar para competir com experiências mais rápidas, dinâmicas e intuitivas.
Graças ao trabalho e à paixão dos desenvolvedores, os JRPG evoluíram bastante sem perder completamente a sua identidade.
Seja no visual, na narrativa ou na ambientação, os jogos atuais tornaram-se mais ambiciosos, apresentando mundos maiores, temas mais complexos e experiências visualmente mais cinematográficas.
Ainda assim, a evolução mais evidente aconteceu no combate.
Muitos estúdios começaram a adaptar mecânicas clássicas para sistemas mais rápidos e modernos.
Um exemplo perfeito disso é Final Fantasy VII Remake, que mistura combate de ação em tempo real com elementos estratégicos através da barra ATB. Durante as batalhas, ao realizar ataques, carregamos a barra ATB. Quando está completamente cheia, podemos utilizar habilidades, magias, ataques especiais e itens.
O jogo abranda temporariamente quando utilizamos estas ações, permitindo escolher estrategicamente o próximo movimento.
Ao mesmo tempo, alguns estúdios optaram por modernizar o combate por turnos através de mecânicas como esquivas e parries, exigindo mais precisão por parte do jogador e tornando os combates mais dinâmicos.
O exemplo mais recente desta abordagem é Clair Obscur: Expedition 33.
EXEMPLOS DE JOGOS DO GÉNERO JRPG
Inspirado em anime e banda desenhada japonesa, Persona 5 destaca-se pelo seu visual extremamente estilizado.
O combate é também um dos seus pontos fortes, utilizando um sistema por turnos rápido e estratégico, focado na exploração das fraquezas dos inimigos e na combinação de habilidades entre personagens.
Desenvolvedora: Atlus
Ano de Lançamento: 2016
Plataformas: PlayStation 3, PlayStation 4, PlayStation 5, PC, Nintendo Switch, Xbox One e Xbox Series X|S
Inspirado nos JRPG clássicos, Sea of Stars utiliza um visual em pixel art cheio de detalhe. As animações são fluidas e a ambientação reforça constantemente a sensação de aventura e nostalgia.
O jogo apresenta um combate por turnos modernizado, permitindo realizar ações que aumentam o dano, bloquear ataques e explorar as fraquezas dos inimigos, tornando cada batalha mais dinâmica e envolvente.
Desenvolvedora: Sabotage Studio
Ano de Lançamento: 2023
Plataformas: PC, Nintendo Switch, PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One e Xbox Series X|S
Visualmente inspirado em anime, Tales of Arise combina ambientes detalhados, animações fluidas e efeitos de iluminação dinâmica.
O combate, semelhante ao de Final Fantasy VII Remake, acontece em tempo real e permite criar combos rápidos e utilizar habilidades especiais. O jogo incentiva constantemente a alternância entre personagens e a combinação de ataques para explorar as fraquezas dos inimigos.
Desenvolvedora: Bandai Namco Studios
Ano de Lançamento: 2021
Plataformas: PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series X|S e PC
Os JRPG são um dos melhores exemplos de um género que conseguiu adaptar-se a diferentes gerações e públicos.
Desde o seu auge nos anos 90 até à queda gradual durante os anos 2000, a indústria foi aprendendo com os erros e modernizando sistemas e mecânicas para acompanhar a evolução dos videojogos.
Hoje, o género continua relevante graças ao talento e à paixão dos desenvolvedores, que conseguiram equilibrar tradição e modernidade sem perder as características que tornaram os JRPG tão especiais ao longo das décadas.
E tu, já conhecias o género JRPG?
Qual é o teu jogo favorito do género?
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