Quantas vezes vemos o trailer de um filme ou série, olhamos para a capa de um livro, ou ouvimos um pequeno trecho de uma música… e decidimos imediatamente que não é para nós?
Com a correria do dia a dia, é natural que escolhamos bem como gastamos o nosso tempo, dando prioridade àquilo que sabemos, à partida, que vamos gostar. No entanto, ao “julgar um livro pela capa”, acabamos muitas vezes por deixar escapar verdadeiras pérolas escondidas.
O mesmo acontece com os videojogos. Basta um trailer, uma imagem ou uma descrição pouco apelativa para afastar potenciais jogadores antes mesmo de darem uma oportunidade à experiência.
Hoje, quero falar de um jogo que dividiu opiniões: Death Stranding.
Quando foi revelado ao público, Death Stranding despertou uma mistura de estranheza e curiosidade.
Os vídeos promocionais mostravam um mundo sombrio e caótico, um entregador que transportava uma cápsula com um bebé, e uma sucessão de imagens difíceis de interpretar.
O jogo estava a ser desenvolvido pela Kojima Productions, liderada por Hideo Kojima, um criador conhecido pelo seu estilo único, muitas vezes considerado excêntrico ou até absurdo.
Resumidamente, em Death Stranding, assumimos o papel de um entregador num mundo devastado por um fenómeno misterioso que isolou a humanidade. A nossa missão é atravessar paisagens hostis, transportar cargas e reconectar comunidades separadas. Pelo caminho, enfrentamos diversos perigos e condições adversas.
Após o lançamento, as opiniões dividiram-se: enquanto alguns criticavam a sua jogabilidade lenta e repetitiva, outros destacavam a sua originalidade, a narrativa emocional e a construção de um universo único.
Muitos jogadores abandonaram o jogo após poucas horas, incapazes de se adaptar ao seu ritmo. Outros encontraram nele uma experiência marcante e profundamente envolvente.
Com o passar do tempo, tornou-se evidente que Death Stranding, apesar de não ser para todos, é um jogo subestimado – uma obra que vai muito além das primeiras impressões.
Atualmente, o mercado dos videojogos é dominado por experiências de ação rápida e recompensas quase instantâneas.
No entanto, Death Stranding apresentou algo diferente: uma jogabilidade focada na travessia e na gestão de recursos, que exige tempo e paciência por parte do jogador.
Além disso, alguns dos elementos que tornam a progressão mais fluida e eficiente só são introduzidos após várias horas de jogo.

Outra questão é a narrativa. Na maioria dos jogos narrativos, as histórias desenvolvem-se em universos com os quais conseguimos estabelecer alguma ligação e familiaridade – o que não acontece aqui. Death Stranding apresenta um universo estranho, tanto a nível visual como narrativo, um reflexo direto da visão singular e da excentricidade de Hideo Kojima.
Para além disso, o jogo não explica claramente, desde o início, o contexto do seu universo e recorre a termos próprios e complexos, o que acabou por gerar estranheza e até confusão em muitos jogadores.
Todos estes elementos, pouco convencionais e pouco imediatos, levaram muitos a desistir da experiência.
Confesso que também estive perto de o fazer. A narrativa parecia não levar a lado nenhum, causava estranheza e a jogabilidade, inicialmente, era bastante limitada.
Ainda assim, decidi continuar… e acabou por se tornar numa das melhores experiências que tive no mundo dos videojogos.
Foi ao longo da minha jornada em Death Stranding que comecei a compreender o valor deste jogo.
A sua jogabilidade lenta obriga o jogador a integrar-se naquele mundo, a fazer parte dele. Cada caminho percorrido, cada carga entregue, cada construção deixada no mundo faz parte da experiência. E, à medida que nos adaptamos, o jogo recompensa-nos, introduzindo gradualmente novas ferramentas e equipamentos que tornam a travessia mais fluida e satisfatória.
A jornada tornou-se mais acessível graças ao sistema online assíncrono, que permite a partilha de construções entre jogadores. Durante as entregas, deparei-me com várias estruturas deixadas por outros jogadores, que facilitaram a minha experiência.
Além disso, este sistema reforça a mensagem do jogo e lembra-nos de que não estamos sozinhos.

A narrativa, inicialmente confusa, começa também a ganhar forma. Os conceitos tornam-se mais claros, o mundo mais compreensível, e somos apresentados a um conjunto de personagens marcantes, cada um com a sua identidade e personalidade únicas.
Além disso, comecei a compreender a verdadeira mensagem de Death Stranding e a forma como o seu mundo reflete a sociedade e o momento em que vivemos. Mas isso é algo que explorarei noutro artigo.
Aos poucos, tudo se encaixa.
Aquilo que antes parecia estranho transforma-se em algo coeso, envolvente e memorável.
Death Stranding é, de facto, uma experiência diferente – e é precisamente isso que o torna tão especial.
Não é o tipo de jogo para quem procura ação constante, recompensas imediatas ou um ritmo acelerado. É uma experiência que exige tempo e paciência. É um jogo para quem valoriza a jornada mais do que o destino, para quem aprecia boas narrativas e para quem está disposto a viver algo mais contemplativo e profundamente humano.
Se, tal como eu, valorizas esse tipo de experiência, talvez valha a pena dar-lhe uma oportunidade.
Pode não te conquistar no início. Mas, se lhe deres tempo, dificilmente o esquecerás.
E tu, já jogaste Death Stranding?
Há algum jogo que consideres subestimado?
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